Conheça Ceifadores

– por JORGE VALPAÇOS

Ceifadores: vida & morte em jogo é o nome do novo jogo de RPG de mesa de minha autoria. Em Ceifadores, os personagens dos jogadores são assassinos profissionais que devem cumprir missões de execução a cada partida. Sim, é um jogo sobre matar. Sobre assassinar. Sobre silenciar a voz alheia praticando a máxima violência. E por isso talvez seja o projeto mais tenso, difícil, complexo e delicado que já me debrucei. Posso dizer que ele me atravessa a cada vez que eu o revisito.

Vida & Morte em Jogo

Os jogadores são considerados a face da morte em Ceifadores, cada qual manipulará o dado da morte. Os ceifadores fazem parte de um enclave da morte, uma espécie de personagem coletiva que agrupa as personagens. Pode ser um grupo paramilitar, uma agência de assassinos seriais, as forças da lei que detém o monopólio da violência, a elite de assassinos de um rei, uma seita fundamentalista, etc. Através da criação do enclave da morte o grupo de jogo delimita o cenário de Ceifadores, podendo ser desde um grupo assassinos que conspira contra reis na antiguidade até mesmo milicianos do mundo contemporâneo. Sim, não há heroísmo em Ceifadores, joga-se com quem mata pessoas comuns. Nada de monstros, alienígenas, ou mortos vivos por aqui.

A contrapartida dos ceifadores reside do papel do mestre da vida, o condutor das partidas. Ele tem um único papel no jogo: manter a vida, lutar por ela, sobreviver com a vítima a ser executada pelos ceifadores. Ele detém o dado da vida e manobras específicas para tensionar os ceifadores, dissuadindo-os de seu objetivo.

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A animação Noir é uma das fontes de inspiração para Ceifadores. Kirika e Mireille são assassinas profissionais que são contratadas para matar alvos, e fazem isto por um bom pagamento, ainda que se envolvam em uma trama maior, envolvendo conspirações e sociedades secretas.

Metas de desenvolvimento

Cada partida é uma execução, ou seja, a jornada dos assassinos criando um plano até chegar ao seu alvo, a vítima. Mas algumas coisas fundamentais mudam em comparação a um RPG de mesa tradicional. Ocorre que em cada jogo que desenvolvo, para além da proposta do jogo, há uma espécie de estudo ou provação acerca da cultura dos jogos de mesa. Ceifadores possui tais metas de desenvolvimento em vários elementos.

Execuções e fardos: a morte e seu peso

O primeiro se encontra no próprio ato de lidar com os assassinatos. Grande parte dos jogos de mesa possuem a solução violenta para a resolução de conflitos como algo comum, e muitas reflexões pertinentes ao lidar com o ato de matar uma personagem podem ser encontradas neste texto. Não há consequências para isto em muitos jogos. Isto pode ser adequado a algumas propostas, mas o que temos por muitas vezes é a banalização do ato de tirar a vida durante experiências lúdicas. Por vezes encontramos jogos que removem a agressão e a violência das soluções de conflito (e acerca do lirismo e da poesia em lidar com problemas, escrevi Asas da Vizinhança). Mas se jogos são formas de expressão, faço um giro quase completo para experimentar outras questões, e com isso, por meio de um jogo, investigar a tradição de jogos de mesa.

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Inserir alguma espécie de consequência ficcional e mecânica ao ato de matar alguém seria algo pouco coerente para um jogo sobre assassinos, correto? Aí que as coisas mudam de figura. Caso não houvesse nenhum controlador de fluxo narrativo discreto ao jogo, teríamos não uma proposta crua e intensa de lidar com a violência, mas um elogio às execuções. Ceifadores possui a mecânica de fardos, aspectos que guiam a jornada de seu ceifador ou ao abandono de sua carreira (lidando com as consequências disso) ou à entrega à perda de controle, tornando-se um psicopata ou um sociopata. Aliás, ele não já o era, e utilizava suas crenças e motivações para se convencer que o que fazia era certo?

Note que o posicionamento ficcional das personagens dos jogadores é de típicos antagonistas de histórias. Joga-se assumidamente com os vilões, com indivíduos que matam pessoas e que precisam reiteradamente se convencer que o que faz é correto. Os jogadores terão em mãos não monstros, seres super poderosos ou algo assim. São personagens comuns que… matam gente. Quais as afetações que isto há de gerar? O que um mestre de jogo (aqui, mestre da vida), impotente e no papel de vítima imporá na narrativa? Como manter a possibilidade de uma experiência catártica com segurança? Ceifadores é uma busca, uma investigação em torno destas e de outras questões.

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Mudança de perspectiva

O segundo elemento que fez parte do cerne do desenvolvimento de Ceifadores reside na mudança de perspectiva ao jogar. Em Ceifadores são os jogadores que agridem e o mestre da vida se defende. O mestre da vida não planeja as aventuras, ele apenas emite a missão ao enclave da morte e aguarda. Então os jogadores criarão um plano para matar a vítima, sendo cada etapa do plano – as minúcias de execução – listadas pelo mestre da vida. Durante a partida, o mestre da vida deve fazer de tudo para que os ceifadores fracassem nos objetivos que eles mesmos criaram, tensionando seus dramas, tentando os fazer lembrar que são seres sensíveis e até mesmo colocando um contra o outro. Por qual razão? Ocorre que os ceifadores não matarão o alvo durante a partida. O plano de execução simboliza a jornada dos ceifadores até encontrarem a vítima.

a·go·ni·a
substantivo feminino
1. Última luta contra a morte.
2. Momento que antecede a morte.
3. [Figurado] Ânsia, aflição.
4. Desfecho próximo (precedido de grande perturbação).

Uma partida emula a jornada dos assassinos até colocarem o alvo na posição planejada, desguarnecido, pronto a ser executado. Trata-se do planejamento, pesquisa, eliminação de forças de segurança, a criação do veneno, a infiltração, etc. Quando eles chegarem ao lado da vítima, no clímax do jogo, a jogada da execução é feita, sendo maiores as chances de sucesso caso as etapas do plano sejam cumpridas conforme o Sistema L’Aventure, o sistema que impulsiona o jogo. Ocorre que o desfecho de uma partida é precedido pelo resultado da jogada da execução, que pode simbolizar inclusive o hesitar dos ceifadores ao matar sua vítima. Seria fraqueza? Compaixão? Como os ceifadores lidarão com as sanções impostas pelo enclave da morte?

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Então seria interessante um sucesso na jogada da execução? Não exatamente. Ainda que você tenha cumprido a sua missão, receberá fardos, ou seja, lembranças de circunstâncias hostis ou um forte desejo de matar mais e mais. Logo, jogar Ceifadores é jogar para perder(se), uma vez que a jornada de um ceifador rumará para sua insanidade, para o abandono de sua carreira ou sua própria morte. Mas é possível reduzir os fardos adquiridos. Você faz isto apenas por meio da experiência adquirida, o que o exporá a novos dramas e conflitos. Mas como assim, a experiência remove fardos? Quão mais mergulhado em sua missão, ofício, ou destino (cada enclave da morte possui um conjunto de preceitos que agrupam os ceifadores em sua jornada atroz), mais ele se convence que está fazendo o correto, e limpa suas máculas. Neste sentido, seguir em sua carreira é também abraçar um comportamento de sociopata ou psicopata, porém você é aceito pelos seus pares por partilhar os mesmos valores, basicamente.

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Léon, ou O Profissional é outra fonte de inspiração de Ceifadores. Temos a jornada de Léon e Mathilda, lidando com o crime organizado, forças da lei corruptas e um contratante mafioso. Tudo com uma carga dramática bastante aguda, expondo muitos fardos dos ceifadores.

Jogando com o olhar

O terceiro elemento que mexeu bastante comigo enquanto meta de desenvolvimento em Ceifadores foi a construção de um jogo direcionado a uma experiência estética. O manual, ou seja, o livro de regras, foi pensado página a página a transmitir distintas mensagens em várias camadas. Ele é um manual de fácil aprendizagem e consulta, mas ele também faz parte do jogo. Sim, o livro de Ceifadores é parte integrante da experiência de jogo, bem como seus anexos, as fichas de ceifador e da vítima.

As fichas são posicionadas enquanto pequenos biombos e há mecânicas específicas para o que acontece em suas faces externas e internas. O próprio sistema de jogo se relaciona com isso, havendo uma tensão partilhada em um jogo de olhares constante, uma vez que literalmente o que está acontecendo na mesa (materialmente falando) terá impacto na história. E como os fardos lidam com a memória dos ceifadores, posso afirmar que a memória dos jogadores também faz parte das mecânicas que sustentam o Sistema L’Aventure aplicado ao jogo.

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Como dito, o manual do jogo faz parte do jogo em vários aspectos, e a sua própria leitura foi planejada a entregar diferentes camadas de Ceifadores. Eu posso afirmar que você pode jogar apenas lendo o primeiro capítulo, mas o jogo que você jogará com esta leitura não será o mesmo que quem leu até o capítulo 2, e quem leu o livro todo jogará outro jogo. Além disso, como um dos conceitos presentes em Ceifadores, temos a fluidez narrativa enquanto meta de design. O livro foi escrito para ser lido e apreciado, sendo agradável a despeito de seu uso à mesa. Enquanto objeto-parangolé, pode ser acessado em distintas direções e sentidos, sendo aplicado de formas diferentes na mesa de jogo. Talvez tenha sido o livro mais minuciosamente escrito que já escrevi, e há lacunas e espaços de criação que acredito que surpreenderão muitos jogadores.

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Ninjas assassinos cumprindo missões figuram um excelente cenário para Ceifadores. A série de jogos Tenchu é uma das inspirações do jogo.

Segurança à mesa

Este não é um jogo sobre terror. Não é um jogo sobre horror. Não é sobre monstros. Mas é o jogo mais delicado, mais difícil, mais complexo que já escrevi. Quando escrevia e testava Ceifadores, descobri o quão tenso o jogo é. Em um contexto contemporâneo com discursos violentos crescentes, enunciados que sustentam justiciamentos e demais posturas intolerantes, só há um caminho a seguir: explicitar o que parece óbvio, mas que não é.

Ceifadores é um jogo sobre assassinos. Não é um veículo para justificar a execução de ninguém. É um jogo cru, brutal, mas é um jogo. Sua indicação classificativa é 18+ e não é intenção do autor estimular soluções violentas de conflitos. Eu defendo soluções não-violentas de conflitos, e sei que jogos não emulam as instâncias fora do jogo. Inclusive, o ato de jogar ceifadores é uma das formas de acessar as afetações em torno da cultura da carnificina e da violência de uma forma catártica, e não um elogio aos grupos de extermínio. É sobre isto que o jogo trata, basicamente.

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Confesso que hesitei de explicitar algo que seria descoberto no ato de jogar, mas penso ser cada vez mais importante comunicar de forma clara e objetiva. Talvez este tenha sido um grande aprendizado que tive nos meus últimos, e os levarei adiante.

Ainda sobre segurança, chega a ser irônico que muitos jogos de mesa tratam vários temas considerados sensíveis, mas não há nada a se falar sobre a morte, sobre assassinatos. Ceifadores, tal qual todos os jogos que desenvolvo, possui regras explícitas para a manutenção da segurança nas mesas de jogo. Temos uma variável simples da já conhecida carta X, uma carta que é acionada quando há temas sensíveis aos jogadores à mesa. Mas para além desta mecânica, todo o manual foi redigido a fim de que não haja comportamentos agressivos ou torpes, afetando negativamente os jogadores.

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Pense em um futuro distópico, onde agentes da lei possuem uma pistola que mata com apenas um disparo chamados criminosos potenciais. Psycho-Pass possui os executores enquanto protagonistas, e o conceito básico de Ceifadores pode ser facilmente transposto para o cenário do jogo. Inclusive Psycho-Pass é uma das inspirações acerca dos dilemas morais e da fragmentação psíquica que o sistema de fardos emula em Ceifadores.

Desenvolvimento e publicação

Ceifadores começou a ser desenvolvido na manhã do dia 15 de março de 2018. A redação de esboços jogáveis se deu durante o primeiro semestre deste ano. Os testes se iniciaram em agosto, e durante todo o segundo semestre de 2018 ele foi jogado, sendo muitas das regras finais advindas dos testes feitos. Cabe destacar que o projeto foi interrompido por inúmeras vezes, em virtude do peso da temática do jogo que, me afetou profundamente.

Os testes se iniciaram no segundo semestre, e junto a eles, se deu o desenvolvimento das ilustrações que comporão o livro. Quem assume a ponta da pena é Luis Oliveira, e você poderá conhecer um pouco de seu trabalho aqui. Para além de ilustrações de página inteira, teremos vários componentes de ilustração que farão parte do manual de regras, e tais elementos, para além da própria diagramação e Ceifadores serão feitos por Luis.

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No último trimestre de 2018 o conjunto de regras final foi começou a ser testado, e a redação dos últimos capítulos acompanhou os testes acerca da progressão da trilha da morte (a campanha em Ceifadores). Novos modos de jogos e variantes foram desenvolvidas enquanto o jogo de longa duração foi testado. Enfim, após praticamente um ano de desenvolvimento e testes, Ceifadores está concluído, e durante 2019 será divulgado e publicado sob o selo Lampião Game Studio. O livro será publicado em formato 23 x 19cm e terá em torno de 200 páginas. Mas quando será publicado? Melhor acompanhar as novidades aqui no blog e também por meio de nossas redes sociais.

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Prepare-se para colocar vida & morte em jogo.
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