Arte em jogo: SeanchaS

– por Ana Carolina Gomes

Agora que SeanchaS já está ao alcance de todos os sonhadores que desejarem dividir suas histórias, chegou a hora de presentar um pouco mais dos “bastidores” do projeto. A pedidos, divido aqui um resumo do processo de criação do design e das ilustrações do jogo:

Primeiramente, seria necessário escolher uma identidade visual: o norte que guiaria todos os outros elementos. O jogo tem bastante a ver com a cultura Celta e decidi que isso deveria estar bem claro.

O próximo passo foi pesquisar quais elementos melhor serviriam para representar as tradições que inspiraram a criação de SeanchaS. A estética Celta é cheia de linhas sinuosas e cores vivas e decidi usar esses elementos em toda a extensão do livro para manter o mesmo ar mitológico.

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O logotipo foi o primeiro a ver o nascer do dia, logo seguido dos quatro símbolos das estações, os irmãos mais jovens. Eu desejava criar algo que lembrasse um artesanato tradicional, com seus símbolos de nós emaranhados. Para o símbolo principal, uma fogueira lembrando o local onde os primeiros povos se reuniam (além da chama do Lampião Game Studio!) e que carrega a inicial do jogo em suas labaredas. As estações, por sua vez, são representadas por elementos da natureza comuns em diversas culturas, visando maior clareza possível para os jogadores. Por fim, todos foram organizados, junto da tipografia, para remeter artesanatos tradicionais talhados ou pintados sobre madeira.

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Continuando com a ideia da fogueira que usei no logotipo, criei a ilustração de capa. O grupo de jovens, ao redor da fogueira e escutando atentamente as sábias palavras da anciã, combina com a ideia universal de tradição e ensinamento. Esta também é a ilustração que mais se assemelha ao povo Celta em si e me esforcei para que os trajes e amuletos fossem desenhados o mais fielmente possível.

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Com os elementos prontos, era hora de montar a diagramação do livro. Para manter a mesma imersão do jogar também no ato de ler o guia, decidi que seria interessante dar a SeanchaS uma aparência que lembrasse manuscritos antigos, como o livro de Kells, com páginas envelhecidas, grafismos coloridos e grandes letras capitulares. Tudo, é claro, num equilíbrio que não atrapalhasse a clareza da leitura.

Entretanto, SeanchaS e o ato de contar histórias não se resume apenas a cultura Celta. Existem mitos e experiências que transcendem barreiras culturais e são comuns a diversos povos e é comum da raça humana sentir a necessidade de passar esta sabedoria as gerações mais jovens. Foi decido que, para as ilustrações que apresentam cada capítulo, apresentaríamos outros povos em situações semelhantes.

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No início, foi um grande desafio, pois, à primeira vista, diferentes povos podem parecer incompatíveis. A solução foi buscar o que cada um teria de semelhante, tanto uns com os outros quanto conosco, leitores. Meu objetivo era, além de manter um tom que combinasse com o restante do livro, evitar o preconceito de que alguns povos são “exóticos” e, portanto, menos desenvolvidos. Além disso, todas as cenas deveriam conter uma fogueira ou chama como elemento de conexão do conjunto, combinando com o logotipo.

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As ilustrações são as seguintes:

Povo Nômade do Deserto (Tuaregues)
Na cultura Tuaregue, os contadores de histórias são chamados de Griots e geralmente se apresentam seguidos de poemas e música cujas composições são feitas, em maioria, pelas mulheres. No desenho, a griot está tocando o tradicional Imzad, um instrumento musical usado também em cerimônias de purificação para acalmar a mente e afastar espíritos malignos. Ao redor, pequenos “djinns” circulam e inspiram a artista, tal qual a tradição pré-islâmica.

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Grécia
Um sábio professor ministrando uma palestra sobre cultura e música para um grupo de alunos atentos. Como na Grécia a educação cultural era infelizmente reservada aos meninos, não incluí meninas na platéia. Os detalhes das colunas e demais elementos da arquitetura são para demonstrar que a aula era para uma turma mais abastada. A inspiração para esta cena veio da ilustração de um antigo vaso onde dois professores ensinam um jovem aluno. Como SeanchaS se foca na comunicação não escrita, escolhi não incluir pergaminhos.

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Indígenas da Amazônia
Um líder tribal apresenta aos filhos a lenda de origem fogo sagrado, trazido por um pássaro da mesma espécie do que está agora pousado entre eles, o Japu. Usei de inspiração a tribo Yawanawa do Acre e algumas outras do norte do Brasil.

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Centro e sul da África
Uma avó ensina aos netos sobre a estrela e suas histórias. Um pequeno suricato os acompanha e parece entender cada palavra, assim como diversas lendas onde há a presença de animais que conseguem se comunicar como seres humanos. Como representantes da áfrica subsariana, e para diferenciar um pouco dos povos tuaregues e seus trajes majoritariamente azulados, escolhi como referência o povo do Senegal com suas roupas e padrões coloridos.

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Japão
Uma sacerdotisa xintoísta faz a dança de purificação inspirada na lenda de como Amaterasu, a deusa do sol, foi convencida a sair da caverna onde havia se escondido. Para incluir um elemento adicional comum à cultura japonesa, desenhei a chama cerimonial revelando na sombra da moça sua verdadeira forma: um tsuru. Nas lendas japonesas, este pássaro sempre aparece como benevolente e generoso e combinaria perfeitamente com uma sacerdotisa.

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Nativos norte-americanos
Esta foi a ilustração que demandou mais cuidado. Existe um grande debate sobre apropriação cultural e clichês no que diz respeito a cultura dos nativos americanos e eu queria representá-los da forma mais respeitosa possível. Geralmente, as tribos das grandes planícies como Apaches e Lakotas são usadas como o padrão de representação de uma infinidade de povos. Ao mesmo tempo, o conceito de totens e animais protetores, que foi decidido previamente para esta ilustração, está mais presente em tribos do norte dos EUA e Canadá e foi preciso adaptar de acordo.

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Na ilustração, um sábio xamã está ensinando sua jovem aprendiz sobre os seres mitológicos e lendas representadas no totem da tribo. Na tradição dos nativos desta área, a Aurora é vista como a dança dos espíritos de humanos e animais. A inspiração para os trajes veio da tribo Tlingit, do Alasca.

E como saber mais?

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