Arte em jogo: Asas da Vizinhança

– por Jesiel Ternero

A primeira ideia que eu tive pro Asas da Vizinhança, quando fui convidado pra realizar o projeto do livro, era ilustrar o livro tomando como posição o olhar que os pássaros têm para a nossa cidade. O primeiro rascunho que eu fiz pro projeto (imagem abaixo), era basicamente uma vista aérea de um bairro carioca já tentando emular o olhar de um pássaro em sobrevoo.

Capa2.jpg
Um dos primeiros rascunhos feitos pro livo.

Entretanto, eu estava achando esse estilo de arte um pouco “duro” demais pro texto do manual e pro jogo em si. Como a gente pôde acompanhar pelos vídeos que o Jorge Valpaços compartilhou contando o processo de criação, o jogo tinha algo de sutil e poético que o tipo de arte que eu estava rascunhando não alcançava.

Foi então que eu mostrei o projeto pra minha amiga, Mariana Sales, ela se interessou e começou a participar também. A primeira dica que ela deu acabou sendo a chave que definiria o caminho visual que seguiríamos. Ela propôs que fizéssemos a numeração do livro imitando as numerações de casas que utilizamos aqui no Brasil. Então, enquanto eu caminhava pela cidade, eu comecei a observar os inúmeros formatos de numeração de casas e reparei que muitas delas usavam mosaico.

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Exemplo de numeração de casas em mosaico que encontramos pela cidade.

Com isso em mente, também me lembrei de uma partida beta-teste que participei com o Jorge e dos pedacinhos de papel que ficaram sobre a mesa (o que é parte da mecânica do jogo, já que o número de rodadas é definido pela quantidade de bolinhas de papéis que os jogadores produzem). Então, ficou claro pra nós que o mosaico seria uma ótima maneira de sintetizar como o fragmento faz parte do jogo, além de estarmos trabalhando com um estilo de decoração que aparece na nossa vizinhança.

Agora, a ideia inicial de fazer a numeração do livro como números acabou não funcionando bem nas páginas, apesar que no fim acabamos usando um padrão decorativo mais ou menos inspirado em pisos.

Ideia inicial de numeração e a que usamos no final.

Bem, definido o estilo do projeto começamos a ilustrar o livro. Porém, uma das coisas mais desafiantes na hora de diagramar era que o livro seria feito especialmente para aparelhos celulares. As telas dos celulares são alongadas, é um trabalho um tanto difícil você organizar um texto legível ali e ilustrações juntas. O que pensamos em fazer, inicialmente, é definir algum tipo de padrão para as páginas e só ilustrar realmente uma página ou outra.

Mas aí entra um outro desafio interessante, o Jorge Valpaços, durante a escrita do livro, escreveu o texto todo em um bloco de notas que carregava consigo e já pré organizou o visual do texto dessa forma. Ou seja, diferente dos livros comuns, com uma página especial para o começo de cada capítulo, onde geralmente pode-se colocar ilustrações, o texto já estava organizado em blocos, sem a divisão tradicional de capítulos com página de entrada e etc. É claro que eu poderia ter sugerido pro Jorge fazer uma adaptação para o modelo tradicional de livro, mas preferi modificar minimamente a ideia original do autor e me adaptar a ela.

Foi assim que chegamos ao padrão de página usado no livro com um sol no topo e “alguma coisa” na base, já que sobraria bastante espaço pela diferença de tamanho de tela do celular em comparação com o bloco de notas usado pelo autor. Na frente do Sol, no topo da página, resolvemos adicionar os doze pássaros personagens principais do livro (apesar de, sendo um jogo de RPG, você ter a liberdade de criar outros e adicionar mais conteúdo ao jogo).

Assim, já que o topo seria uma representação do céu, a base teria que ser a cidade, ou melhor, o bairro. E assim fizemos. E, claro, como um bairro normal “muda”, também adicionamos mudanças sutis no bairro do livro. (O leitor mais atento vai reparar que surge uma casa nova a partir de certa página, uma árvore nasce e cresce, um arbusto surge e floresce, flores surgem também, pipas aparecem no céu, um varal com roupas, etc.) O aspecto de “morro” desse bairro surgiu naturalmente pela necessidade de haver um espaço para encaixarmos a numeração da página em baixo.

bairro
O bairro.

Por fim, a decisão final foi se faríamos as ilustrações em vetor ou bitmap. Explicando de maneira rápida, as imagens vetoriais são feitas com elementos mais fáceis de manipular posteriormente, como linhas e figuras e figuras geométricas sobrepostas que vão se somando e podem ser redimensionadas sem perda de qualidade. Já o bitmap, é como se fosse uma tela de pintura digital, na qual você tem que preencher cada pixel e não consegue redimensionar sem perder qualidade de alguma forma. Pessoalmente, eu acho que as ilustrações vetoriais ficam com uma cara muito “artificial”, na falta de um termo melhor. E como o livro todo é terno e sutil, optamos pelo bitmap, para as ilustrações terem um pouco mais a aparência de “feito a mão”, apesar de serem ilustrações digitais. E, rapaz!, foi um baita trabalho ilustrar ladrilho por ladrilho desse livro durante os meses. Mas, olhando o resultado final, valeu a pena.

Além disso, vale a pena dizer que a ideia da arte do livro foi feita em troca constante com o Jorge. O livro foi uma criação coletiva de 3 pessoas, acessamos a criatividade de 3 cabeças, e isso fez toda a diferença. A minha página favorita, por exemplo, nasceu de uma ideia do Jorge de fazer a cidade de tarde, que depois virou de noite.

E assim foi a criação artística do Asas da Vizinhança. Espero que as pessoas se divirtam com o jogo e criem ótimas histórias com os passarinhos.

Saiba mais

Conheça mais sobre o trabalho de Jesiel Ternero.
Conheça também as artes de Mariana Sales.
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