Faces e Ganchos: A Unidade 731

– por JORGE VALPAÇOS

A coluna Faces e Ganhos dá novas ideias para aventuras, cenários e personagens marcantes aos jogos do Lampião. Neste texto, nós vamos tomar uma das mais bizarras experiências humanas durante o século XX, o oficialmente chamado Departamento de Prevenção de Epidemia e Purificação de Água do Exército de Guangdong, posteriormente reconhecido como Unidade 731. Neste misto de laboratório e campo de concentração,  terríveis experiências japonesas ocorreram em território chinês invadido.

Uma advertência

Este cenário trata de eventos traumáticos, profundamente violentos e não completamente resolvidos em vários níveis. O objetivo deste texto, bem como dos jogos que ele suporta (Déloyal e Pesadelos Terríveis) não é fazer uma troça com centenas de milhares de vidas ceifadas por experimentos descabidos. Também não é minha intenção vilanizar a ciência. Ainda que a Unidade 731 tenha existido e há uma série de pesquisas históricas acerca da mesma, aqui pretende-se apenas explorar suas possibilidades para jogos, alinhadas às propostas de libertação de uma sociedade oprimida (Déloyal) ou de sobrevivência em um cenário de fortes traumas físicos e psicológicos (Pesadelos Terríveis). Cabe conduzir as partidas seguindo os procedimentos de segurança presentes em ambos os jogos.

005 Rare+images+of+unit+731+centerunit+731+was+a+unit_8e9587_5736288

O Contexto

• Em 1931 o Japão invadiu o nordeste da China, estabelecendo o controle sobre a região da Manchúria, fundando o estado de Manchukuo, expressão do imperialismo nacionalista japonês, sendo um enclave continental estratégico. Este território era administrado efetivamente por membros do exército imperial japonês, ainda que houvesse representantes chineses na administração local.

• No campo das mentalidades não havia discussão avançada acerca de ética médica, e diferentes nações utilizavam seres humanos em suas experiências, sem o consentimento das mesmas. Este panorama foi agravado com a guerra química e biológica que se desenvolvia, sobretudo após a Primeira Guerra Mundial.

• Discursos supremacistas, racistas, ultranacionalistas e imperialistas eram partilhados por potências no contexto do entre-guerras. O Japão Imperial unia um profundo discurso técnico-científico à apropriação pelo estado japonês de elementos religiosos do xintoísmo, havendo a associação entre os desígnios da nação, a vontade do Imperador japonês e motivações sobrenaturais/divinas.

004 800px-War_flag_of_the_Imperial_Japanese_Army.svg
A bandeira do exército imperial japonês. Até hoje, este símbolo da ação imperialista do Japão gera conflitos em torno da memória e das narrativas deste conturbado período.

• A eclosão da Segunda Guerra Mundial (compreendida neste contexto como Guerra do Pacífico) se dá no contexto de prosseguimento das hostilidades das guerras Sino-Japonesas.

• A Unidade 731, em Harbin, cidade parte do estado Manchukuo, liderada pelo general Shiro Ishii, foi criada pelo Japão como parte dos estudos secretos para desenvolver armas químicas e biológicas na China. Este bizarro laboratório inaugurado em vários estágios de 1935 até 1939, tendo o complexo de Pingfang como centro das operações.

• Recebia-se neste campo de concentração, prisioneiros soviéticos, coreanos, filipinos, aliados (já na 2ª GM); porém grande parte dos que morreram nas instalações do complexo de Pingfang eram chineses, civis e militares.

Pensando nas Faces

Pensar no elenco de antagonistas e coadjuvantes é algo importante para jogar utilizando a Unidade 731 como cenário. A primeira recomendação é não recorrer em tons caricatos para caracterizar os japoneses que servem o Império Invasor. Ainda que possa parecer estranha a servidão cega a um ideal supremacista que ignora o sofrimento de outros em nossos tempos (sabendo que experimentos que também rasgariam a bioética em nossos tempos ocorreram nos EUA e na URSS neste momento da história), grande parte do instrumental mental da época sustentava tais “esforços de guerra” para o “progresso e vitória de uma causa”. Logo, no lugar de simplesmente recorrer a médicos loucos e guardas insanos, interprete-os como pessoas complexas, contraditórias, que podem se afeiçoar com presos, mas que acreditam no que estão fazendo. Eles podem hesitar, inclusive.

Vale tornar as coisas mais complexas. Os funcionários das instalações da Unidade 731 não eram apenas japoneses. A história não é binária. Muitos médicos, biólogos e membros da administração de Manchuoku eram locais, chineses. E muitos chineses não tinham boas relações com outros grupos étnicos, por exemplo. Para além, há quem colabore para sobreviver. Logo, Cenas interessantes poderiam surgir do encontro de um preso na Unidade 731 com um antigo vizinho, ou ainda familiar, que hoje é cozinheiro ou faxineiro das instalações. Ele seria condenado por isso? É uma zona cinzenta, complexa. Não se furte de levá-las ao seu jogo.

003 QyYWb4O.jpg
Shiro Ishii, comandante da Unidade 731

Alguns ícones são importantes a serem levados ao jogo, como o próprio Shiro Ishii, responsável pela Unidade 731. Além de militar, ele era microbiólogo com uma carreira de cirurgião de campo. Ele cometeu inúmeros crimes de guerra, porém desenvolveu pesquisas no campo de purificação da água e combate ao cólera, demonstrando uma certa complexidade a esta personagem. Além do controverso episódio da imunidade aos crimes de guerra que cometeu (uma certa permuta do pós-guerra bem complexa a ser explicada por aqui), ele não se revelava como brutal ou insano, mas profundamente cauteloso e técnico. Trabalhar sua personalidade e inclusive relacioná-lo a algumas estruturas da China invadida (que tal fazê-lo um habitué de um restaurante local, por exemplo) podem ser alternativas para fazer com que ele seja mais do que um “vilão a ser derrotado” em suas partidas.

Sementes e Ganchos

Foram inúmeras as atrocidades cometidas tanto dentro da Unidade 731 quanto em seu entorno. Listarei alguns desses eventos para que sejam utilizados tanto para criar novas Cenas, quanto para improvisar durante as partidas, ou ainda como elementos para adensamento das personagens principais e coadjuvantes.

• Cirurgiões se revezaram para dissecar civis vivos, removendo seus órgãos um por um até o paciente morrer.

• Outros foram amarrados no chão congelado para ver a rapidez com que iriam sucumbir a queimaduras de gelo (preocupação com o iminente confronto com a URSS e como tratar ulcerações provocadas pelo frio em campo).

• Aqueles que sobreviviam a uma experiência eram tratados, bem alimentados e acreditavam que sairiam. Media-se o bem-estar desta “triagem humana”. Após estarem bem e estáveis, eram submetidos a outras experiências. Mas havia alguns que eram mantidos sob forte estresse, justamente para comparar efeitos em diferentes “amostragens”.

• Havia o destinamento de prisioneiros para câmaras de descompressão, onde os pesquisadores cronometraram quanto tempo levava para seus globos oculares explodirem.

• Prisioneiros eram pendurados e vivissecados sem anestesia.

• Experiências para o tratamento da sífilis entre tropas japonesas fizeram com que houvesse estupros de homens e mulheres locais, sexo forçado entre prisioneiros e infecção dos mesmos com ampolas com vírus. Por vezes, mulheres eram forçadas a engravidar para que testes fossem feitos acerca da transmissão vertical da doença.

006 Rare_523104_5736288

• Muitas doenças eram espalhadas e técnicas de tratamento e cura eram experimentadas. Cólera, febre tifoide, disenteria e antraz eram ministradas em cidades chinesas e apenas havia tratamento (significando aprisionamento para tanto) na Unidade 731.

• Prisioneiros soviéticos, filipinos e outros chegaram a ser infectados, e após mortos, conservados em formol e expostos aos demais.

• Estima-se que mais de 200.000 morreram com as operações in loco na Unidade e com as doenças espalhadas. Não se sabe ao certo o número de prisioneiros na Unidade 731, porém todos os internos possuíam uma numeração de 1 até 1.500, e depois a numeração começava novamente, conforme uns morriam e eram submetidos por novos prisioneiros, no período 1937-45.

A Unidade 731 como os 2 Mundos

A restrição do espaço e o adensamento do terror no claustro são recursos muito interessantes para o terror enquanto gênero narrativo. Pensar na Unidade 731 como o Nosso Mundo é algo muito interessante para Contos de Terror em Pesadelos Terríveis.

Ao construir os 2 Mundos, primeiramente estabeleça Traços e Traumas para o Nosso Mundo se valendo de informações presentes no Contexto e nas Sementes e Ganchos deste mesmo texto. Crie elementos que representem a esperança dos prisioneiros em fugir ou mesmo o término da guerra. Alterne a macroescala do conflito com os anseios pessoais. Por exemplo, Traços para o presente podem ser: Há uma boa alimentação / Todos recebem tratamento médico especializado. Mas os Traumas podem ser: Há um sorteio acerca da infecção com cólera todas as quintas-feiras / As câmaras de frio são tão absurdas que todos reconhecem quem passou por elas por suas amputações.

009 02-hist-04-l

Os Sonhadores devem possuir Traumas Psicológicos relativos não a uma experiência prévia, mas ao que presenciaram/vivenciaram na Unidade 731, afinal, esse local é tomado como o Nosso Mundo, espaço de jogo em Pesadelos Terríveis. O simples testemunhar de gritos de clamor ficando mais fracos até um silêncio aterrorizante é um bom Trauma Psicológico para um Sonhador/prisioneiro/experiência. Jogue com o subjetivo, com o que não está evidente. Também é possível criar personagens já com Traumas Físicos, fruto de sua posição enquanto cobaia humana. Você pode ter Sonhadores que já estão sobre ação de patógenos ou que os recebem durante os Contos, tornando as partidas mais intensas. Não se esqueça que Sonhadores iniciantes com Traumas Físicos possuem mais Traços a distribuir.

Quanto aos Medos Primordiais, a infecção com doenças letais, amputação de membros e a espiral da perda da segurança psicológica podem ser representadas. Não se esqueça que os Medos Primordiais são a base para a criação dos Domínios e dos Pesadelos.

Reflita cada campo das experiências nos Domínios e Pesadelos do Mundo dos Pesadelos. Os Sonhadores podem topar com um Domínio controlado por monstros que simbolizam os microrganismos em formato deturpado e bizarro. Os médicos podem ser vistos enquanto carrascos. Um grande labirinto seria a metáfora das instalações. Aqueles que foram mortos podem revisitar enquanto carne putrefata as mentes daqueles que foram seus melhores amigos, ainda que por um pequeno espaço de tempo. Algo interessante por aqui é o acesso ao Mundo dos Pesadelos. Em virtude das experiências, drogas que afetam o estado de consciência podem transportar os Sonhadores ao Mundo dos Pesadelos por meio dos delírios ou mesmo as alucinações geradas pelo excessivo estresse podem fazer com que os Sonhadores acessem este temeroso reflexo da realidade.

Quanto aos Contos de Terror, a experiência central é a sobrevivência. E por certo, conhecendo a Unidade 731, isso não é nem um pouco fácil.

00 7images
Médicos da Unidade 731 ou Pesadelos em sua manifestação Grupal.

A Unidade 731 como um Pilar do Império Invasor

Dentro da literatura pulp, as experiências biológicas são recorrentes, sobretudo em histórias escritas no contexto das grandes guerras. A existência de cientistas loucos – arquétipo do gênero ficcional – e de laboratórios e campos de concentração são bem comuns, inclusive.

O grupo de jogo pode encarar a Unidade 731 como um Pilar do Império Invasor em uma sessão única (one-shot) ou dentro de uma Guia de Campanha complexo. É interessante, ao pensar em quaisquer opções, relacionar os Libertadores ao contexto histórico do entorno da Unidade 731. Por exemplo, seria um pouco difícil haver um Libertador aliado dos EUA, uma vez que o Pacífico torna-se mais agudo encontro teatro de operações aos Aliados a partir de 1941. Seriam aliados possíveis coreanos, filipinos e soviéticos, por exemplo. Os nativos seriam chineses, mas pode ser mais interessante ao seu grupo de jogo explorar as especificidades étnico-culturais dos chineses e sua relação com os invasores. Jogar com um traidor/invasor pode significar jogar com um chinês que fora colaboracionista ou mesmo com um japonês que não concorda com o imperialismo de então, o que poderá ser bastante interessante.

002 Unit_731_-_Complex
Complexo da Unidade 731 em Harbin

Muitas são as possibilidades de tratar a Unidade 731 como um Pilar, mas sugiro que insira documentos importantes na aventura, fornecimento de armas à resistência e que o próprio Contato Superior da Trupe de Resistência tenha sido preso e levado para o campo de concentração, sendo necessário resgatá-lo. Muitas são as possibilidades abertas, e aqui vai uma sugestão prontinha para você levar à sua mesa de jogo.

Unidade 731 – Local – nível alto

Que Local é esse? Um complexo que serve como campo de concentração e laboratório para o desenvolvimento de pesquisas de armas químicas e biológicas.

Quem é a pessoa por trás de seu funcionamento? Shiro Ishii, microbiólogo e tenente-general da Unidade 731.

Como invadir esse Local? Se infiltrando como pacientes/capturados.

O que é preciso fazer para desmantelá-lo? O objetivo primário é resgatar o Contato Superior e o máximo de prisioneiros. Não há forças para desmantelar completamente a Unidade. Porém efetuar grandes danos e recolher documentações incriminatórias é importante à Resistência, pensando em longo prazo.

Existe um membro da Resistência no Local? Sim, o Contato Superior.

Minúcias Vitais

• Recolher informações sobre o paradeiro do Contato Superior, que não está no Ponto de Encontro (descobrindo que foi levado à Unidade 731).
• Não suceder na ação de captura para adentrar na Unidade, uma vez que é possível morrer no confronto.
• Resistir às sessões de tortura física e psicológica e não revelar informações da Trupe de Resistência.
• Adquirir documentos que comprovem a bizarras experiências.

• Localizar o Contato Superior (ele está infectado e é necessário ministrar soros no mesmo para garantir sua sobrevivência).
• Obter armamentos dos guardas locais e partir em fuga.
• Fugir libertando o máximo de prisioneiros.

Uma nefasta experiência: unindo as coisas

É possível unir as propostas entre Pesadelos Terríveis e Déloyal em uma campanha conectada. Basta articular a derrubada do Pilar com a libertação de prisioneiros com a sobrevivência física e psicológica dos mesmos em seu interior. Em uma parte das partidas, os jogadores jogam com os Sonhadores/prisioneiros, que devem fazer de tudo para resistir às bizarras experiências, enquanto os Libertadores criam um planos, invadem as instalações e tentam os libertar. Neste sentido, as Cenas se alternam, como em um filme que apresenta a mesma história sob diferentes perspectivas, e os jogadores interpretam duas personagens, alternando instâncias de ação pulp visando a derrubada deste Pilar com o terror psicológico vivenciado dentro das instalações.

E então, que tal experimentar essa proposta?
Aproveite para adquir seu Déloyal aqui e Pesadelos Terríveis neste link.

Anúncios

Um comentário em “Faces e Ganchos: A Unidade 731”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s